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Poong, The Joseon Psychiatrist: falar cura, ouvir liberta

Poong, The Joseon Psychiatrist (Poong, o Psiquiatra de Joseon; Viki) conta a história de Yoo Se Yeop (Kim Min Jae), uma criança prodígio que se tornou Acupunturista Real devido não apenas às suas incríveis habilidades com a agulha, mas também ao seu vasto conhecimento de textos médicos da época. Ele é envolvido numa conspiração do palácio, o Rei morre em suas mãos, ele é banido da Corte Real e, devido ao trauma, perde sua habilidade com as mãos.


Junto ao seu servo e grande amigo Man Bok (Ahn Chang Hwan), eles chegam à Vila de Sorak, mais precisamente à Clínica Gyesoo, e somos apresentados a um found family lindo demais. Ali, ele conhece o ranzinza Kye Ji Han (Kim Sang Kyung), o único médico da vila, quem acaba acolhendo a dupla recém-chegada e se torna peça importante para que nosso protagonista possa voltar a atuar na medicina. Outra pessoa fundamental para esse processo é Seo Eun Woo (Kim Hyang Gi), uma jovem viúva que vai de paciente a assistente a interesse amoroso de uma forma gradual e orgânica. Assim, Yoo Se Yeop passa a ser chamado Yoo Se Poong; passa a ser parte de uma família simples, barulhenta, mas bastante amorosa e unida; e vê os rumos de sua vida serem mudados.


Fugir não vai resolver nada (...) se você está lutando, grite por ajuda.

Poong, o Psiquiatra de Joseon é um drama otimista e divertido, mas por ser histórico, responde a todos os requisitos do estilo: intrigas, invejas, inimizades, vinganças, vilanias, vaidades. E apesar de ter apenas 12 episódios (que poderiam ser 8 ou 10, aliás), algumas tramas foram prolongadas mais que o necessário, tornando a história, por vezes, cansativa. Para completar, hoje, depois de assistir ao último capítulo, fui surpreendida com um gancho horrível e o anúncio de que existirá uma segunda temporada em janeiro de 2023 (realmente, ninguém pediu! Parem com essa ocidentalização dos dramas!), algo totalmente desnecessário porque todos os plots foram resolvidos, só faltava o casalzinho ficar junto e ainda restavam 5 minutos no rolo de fita... enfim, HORROR!


Mas o que quero dizer é que, ainda que eu tenha me irritado nesse final ou me cansado em alguns episódios, o drama falou bastante comigo porque se propôs a trabalhar os sentimentos. Não de forma superficial, mas dando verdadeira importância e atenção às dores invisíveis que todos nós, seja em Joseon, seja em 2022, carregamos.


Você não é alguém que salva outros? Você vai salvar muitos, então fique vivo.

Quando Poong é banido do Palácio e percebe que tremores tomaram conta de suas mãos e, por este motivo, não consegue praticar acupuntura, o primeiro pensamento é o de morte, porque nada mais faz sentido para ele: aquela indissociação entre 'eu sou o trabalho que exerço e sem ele não sou ninguém'. E trabalhar na clínica com o Ji Han faz com que ele exerça a habilidade de ouvir, descobrindo que não precisa, necessariamente, estar com uma agulha nas mãos para trazer alívio a seus pacientes porque, estando junto a eles e disponibilizando-se a ouvi-los sobre suas rotinas e vivências, é possível encontrar alternativas para dirimir suas dores.


Espero que você perceba que precisa de ajuda também.

O termo "psiquiatria" surgiu entre os séculos XVIII e XIX, referenciando Philippe Pinel, considerado o pioneiro da psiquiatria moderna. A Dinastia Joseon durou de 1392 a 1897 e eu amei o fato de o drama trabalhar a ideia de enxergar as emoções como fonte de sofrimento humano uma abordagem tão antiga quanto o próprio tempo e a existência. E amei como a trama caminha de uma forma que Poong, ao trabalhar pela melhora dos outros, consegue ir curando, lentamente, suas próprias feridas. Afinal, quem cuida também precisa ser cuidado, né, Poong?!


"Eu não sabia. Eu tentei dizer a mim mesma que a morte do meu marido não era minha culpa. Mas todo mundo me culpava e isso se tornou um fato. Eventualmente, até eu mesma me culpava." / "Não é sua culpa. Então, a partir de agora, viva sua própria vida. Eles não serão capazes de interferirem na sua vida. Eu vou garantir isso, Eun Woo."


E ao trabalhar algumas questões de saúde mental, como demência senil, ansiedade, depressão, ideação suicida, síndrome do pânico, desde crianças a adultos, por exemplo, é preciso destacar que a maioria das vítimas eram mulheres de diferentes classes sociais, aliás, evidenciando o machismo e a misoginia das leis à época, claro, mas também como forma de evidenciar que muitos casos continuam acontecendo hoje, fora do escopo das leis arcaicas da era dramatizada. Destaco como um dos exemplos mais vívidos a própria trama da Eun Woo: nobre, filha única do Governador da Província, ela tenta suicídio algumas vezes por conta das pressões familiares da família do falecido marido. Ela carrega culpas imensas que são, diariamente, reforçadas pelo discurso e cobranças da sogra e o comportamento do cunhado. Com o tratamento, suas habilidades de observação e empatia extraordinárias voltam à superfície de quem ela é, o suficiente para que ela consiga voltar a ser alguém, não apenas o vislumbre de quem um dia foi.


Disseram que coisas ruins acontecem se eu abrir meu coração.

Alguém me disse uma vez que é preciso ter coragem para chorar e eu penso bastante nisso sempre que me pego emocionada com algo. Porque, para chorar, eu preciso sentir. E quando eu me permito sentir, eu me permito me perceber; eu chego mais perto de mim. E a gentileza dedicada à senhorinha divertida demais, mas com uma demência em estágios avançados demais, me aqueceu o coração. E a delicadeza em abordar os sofrimentos mentais das crianças, seja o menino que era pressionado pelo pai e pela madrasta ao mesmo tempo em que era agredido pelos irmãos, seja pela menina sonâmbula que vagava pela floresta porque precisava aprender a lidar com o luto da mãe, foram um abraço quentinho. E por falar em luto, foi belíssima toda a abordagem das diferentes formas de sobreviver às perdas de quem se ama.


E o drama evidenciou que é possível fazer as pazes com o próprio passado enquanto os olhos estão fixos no futuro, ainda que o presente seja repleto de dias abstratos porque, os mesmos dias, também, estão cheios de sentimentos concretos. Os pacientes de Poong, juntamente com ele, puderam perceber os detalhes que sussurram aquele sentimento refrescante, mas sincero demais, que diz que nada é definitivo.


Deixe as coisas acontecerem. Então veja o que acontece.

Saúde mental é fundamental para nossa qualidade de vida, emoções, raciocínio, comportamentos e forma de se relacionar conosco mesmos e com os outros. E é muito importante, não apenas o acesso aos tratamentos adequados, como revelado no drama, mas o cuidado preventivo e contínuo. Mas ainda há tanto preconceito! Tanta falta de acolhimento e de escuta! Que, como mostrado em Poong, o Psiquiatra de Joseon, possamos difundir a reflexão sobre a valorização da vida. Que possamos, num futuro não tão distante, viver numa sociedade sem julgamentos quanto aos sentimentos alheios porque, na maioria das vezes, este acaba sendo o principal motivo do silenciamento das dores e das angústias que se vive.


Palavras não ditas viram sintomas, mas palavras verbalizadas podem mudar vidas; curar corações partidos.


Você percebeu o tanto que você está sorrindo essa noite?

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