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Mask Girl: a flor que rompe o asfalto


Olha essa abertura perfeita!


Mask Girl (7 episódios; Netflix) conta a história de Kim Momi, uma mulher que cresceu ouvindo que era feia e, por isso, não poderia realizar o sonho de cantar e dançar para um grande público — mesmo sendo extremamente talentosa para tal. E ao longo dos episódios, divididos em três atos, vamos descobrindo que a história de Momi perpassa pela história de várias outras pessoas, como a vida o é, nos apresentando um jogo de perspectivas e costuras que despertam dos mais variados sentimentos: vamos do riso ao asco em segundos; nos deparamos com preocupações válidas, rimos e nos emocionamos.


Diga quem você é, me diga
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida

Assim o primeiro ato de Mask Girl poderia ser resumido. Aqui, Momi é interpretada pela estreante Lee Hanbyul, quem dá vida à versão "feia", durante o ano de 2009, sendo uma funcionária quase apagada num escritório de contabilidade, mas que à noite põe uma máscara que lhe dá a liberdade de fazer o que gosta em frente a uma tela que lhe garante o anonimato; principalmente o que ela sempre quis: sentir amor (mesmo que em forma de likes e comentários). É comovente ver a jornada dessa mulher reclusa, na casa dos 20 anos, que nunca teve um minuto de paz sobre a própria aparência, já que desde criança sua mãe não a deixava esquecer o quanto ela era feia. O estrago que isso causou? O drama responde. E nos leva a pensar por horas...


As cenas em que Momi, durante as suas transmissões online, bloqueava os comentários não solicitados ou que não encaixavam com a narrativa que ela estava criando, evidenciavam que, ali, atrás de uma máscara, ela conseguia estar no controle pela primeira vez na vida. E viver atrás de uma máscara, sem o pensamento constante de ter de mudar a própria aparência para ser aceita, para ser amada, para se sentir mulher, parecia ser o potinho de ouro no final do arco-íris... até que uma situação desagradável demais de assistir deu novos contornos ao drama, colocando nossa protagonista num caminho marcado por violência, assassinato e vingança.


Tira a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro jeito de ser

O segundo ato, protagonizado pela Nana (teamo, Nana!), é o meu preferido. Ela dá vida ao novo rosto da Momi após uma série de cirurgias plásticas e a necessidade de recomeço. Em todas as cenas, a dualidade: sentimos empatia e afeto instantâneo, baseados em tudo o que a Momi do primeiro ato passou, mas também nos assustamos com a presença ameaçadora que a Momi adquiriu diante de todas as circunstâncias da vida e todo o ciclo de violências que não apenas se repete, mas aumenta à medida que os anos passam.


As sequências na unidade prisional são HORRÍVEIS e extremamente ENGRAÇADAS. E eu penso que é neste ato que os telespectadores são levados às diferentes formas de entender a protagonista porque penso que o drama inteiro brinca com a forma como a percebemos. Mask Girl nos convida a um passeio conturbado por todas as personagens (não estou falando das representações masculinas e direi mais sobre isso depois!) que estão quebradas de alguma forma e só querem ser vistas e ouvidas, que só querem pertencer a algum lugar... mas a crueldade do mundo não permite experimentar a crueza das emoções.


Ninguém merece ser só mais um bonitinho
Nem transparecer consciente inconsequente
Sem se preocupar em ser adulto ou criança
O importante é ser você
Mesmo que seja estranho, seja você
Mesmo que seja bizarro, bizarro, bizarro

Em mais um salto no tempo, Go Hyunjung é quem interpreta a Momi nos episódios finais (queria que tivessem mantido a Nana e feito uma maquiagem nela, como fizeram em todos os outros, mas ok). Neste momento, temas como aceitação e redenção são retratados com bastante elegância, o que contribui para que tenhamos empatia pela protagonista, mas eu senti que o drama focou mais em apresentar reviravoltas a uma narrativa puramente transformada em sede de vingança a resolver as questões apresentadas no começo da história; senti como se o senso narrativo fora perdido porque, para mim, o drama era muito mais sobre pessoas reais e em quem dói demais em meio a uma sociedade (e suas interpretações sociais) adoecida, agressiva e violenta.


Seria criminoso da minha parte adentrar em detalhes da trama porque o drama tem uma estrutura bem definida quanto à forma de contar a história, como uma matrioska sem linearidade, e que pede que os acontecimentos, para além de serem vistos, sejam experienciados; sentidos.


Meu cabelo não é igual
A sua roupa não é igual
Ao meu tamanho, não é igual
Ao seu caráter, não é igual
Não é igual, não é igual, não é igual

Aqui, gostaria de destacar um dos pontos altos do drama: ainda que Momi seja a protagonista, há episódios que são contados a partir da perspectiva das demais personagens e isso é algo que apenas acrescenta peso aos acontecimentos e às motivações da própria protagonista! Num jogo de semelhanças e diferenças, há muita sororidade envolta a found family (contido na atemporalidade da narrativa, mas não darei spoiler), como nos episódios centrados na Kim Chunae (Han Jaeyi). A Yeom Hyeran (Kim Kyungja) está IMPECÁVEL em todas as cenas, provando ser uma mulher completamente assustadora e, por falar nisso, não há como negar o desconforto intencional durante o episódio do Ju Ohnam (Ahn Jaehong), um incel completamente repulsivo (e falando nele, uso o gancho para pontuar o bom trabalho sobre as dinâmicas de gênero e a popularização da internet; além de todas as representações masculinas que me fizeram pensar na máxima "nem todo homem, mas sempre um homem").


"Meu sonho é me tornar alguém que é amada por todos." Essa afirmação da Momi dói porque remontamos todos os cenários que ela viveu e, mesmo que você não torça por ela, você não consegue desgostar totalmente já que Kim Momi empresta qualidades e defeitos de muitas de nós, mulheres.

 

Mask Girl está disponível na Netflix e vale a maratona.


¹: todas as quotes espalhadas pelo texto são trechos da música Máscara, da cantora Pitty.

²: o drama pode apresentar gatilhos quanto às cenas de violência psicológica e física, assédio e estupro.


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