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True Beauty: ser f̶e̶i̶a̶ não convencionalmente bonita é um ato de rebeldia

Atualizado: 28 de fev. de 2021


Se maquiar é o máximo!

"Esse rolê de mina feia na ficção já rendeu até podcast", digo pra uma amiga, em reposta ao seu comentário sobre True Beauty: "mas a Jukyung só tem rosácea e algumas espinhas! Em vez de ter gastado uma fortuna com maquiagem, era mais fácil ter ido ao dermatologista e feito um tratamento". Tenho que concordar - mas aí a gente não teria história. Assim como em todas as outras narrativas sobre meninas feias que eu conheço.


True Beauty não precisa inovar na trama da menina feia pra fazer a gente gostar da protagonista - e, no meu caso, sentir identificação, também. Lim Jukyung tem algo em comum com todas as outras meninas feias da ficção - ou seja, ela não é nada feia, na verdade. Debaixo de camadas de adereços como óculos de aro grosso (sempre eles, por que, meu Deus?) existe a deusa Moon Gayoung, que dificilmente conseguiria parecer feia como pede o papel. Mas aí é que tá: será que esse papel - o de menina feia, em geral - realmente pede por isso? Uma menina que seja, de fato, totalmente fora dos padrões?

No webtoon, Jukyung é mais mal diagramada do que na série

Abro aí um (possivelmente longo) parêntese sobre o motivo pelo qual as meninas feias na ficção nunca são, de fato, feias, mas apenas bonitas disfarçadas: porque a mesma mídia que nos vende um padrão inalcançável de beleza não pode vender a ideia de que mulheres não convencionalmente bonitas são, sim, amáveis e podem ser desejadas do jeito que são. Isso seria um tiro no pé dos patrocinadores e de todos os interessados em manter os padrões de beleza em níveis adequadamente impossíveis de atingir (capitalismo e patriarcado, basicamente). Pelo menos é isso o que eu penso sobre a falta de representação realista de meninas feias na ficção, fecha parênteses.

Queria ser feia assim

Eu amo O Diário da Princesa e, tanto quanto amo ver meu eu adolescente representado em toda sua esquisitice e falta de glamour na Mia Thermopolis pré-debut, também amo sua transformação de patinho feio em lindo cisne. Quando ela chega na escola, tira o chapéu e deslumbra a todos com seu novo cabelo pranchado (e eu não vou entrar no mérito do ódio aos cachos nos anos 2000) é o auge, eu suspiro toda vez que assisto. Acho que é porque eu sei gostar das duas coisas: da naturalidade com que se pode ser feia e simplesmente não se importar, e da magia que é se transformar numa versão 2.0 de si mesma e deixar todo mundo de queixo caído.


"Eu acho que ele não me reconheceu"

Lim Jukyung é uma menina feia que não se importa - como todas as encarnações de Betty, a Feia e a própria princesa Mia. Ela tem tanto mais sobre si do que a aparência com que se importar: seu senso de humor, seus interesses por quadrinhos obscuros e bandas de heavy metal, sua família adoravelmente maluca e suas notas baixas, por exemplo. Isso até que o bullying se torna insuportável e ela entende que o fator que motiva a provocação maldosa das colegas é a sua aparência. E então, inevitavelmente, ela começa a se importar.


"Você é bizarramente feia"

Em True Beauty vemos a heroína superar um passado de rejeição e construir uma autoestima saudável com a descoberta da maquiagem. Jukyung se torna um ícone de beleza em sua nova escola e é capaz de atrair atenção das pessoas mais populares - mas, a essa altura, ela já se importa demais. Mas era tão bom não precisar se importar, né? A vantagem da falta de vaidade é que ela não impõe exigência alguma na hora de sair de casa. Jukyung continua sendo engraçada, fofa e com gostos peculiares, e é fora da escola que ela pode ser quem realmente é sem todas as camadas de primer, base e blush que a tornam excepcionalmente bela. Na loja de quadrinhos, por exemplo, ela se sente à vontade pra ir com o rosto nu, acne à mostra (e é aí que eu me sinto super representada, pois preguiçosa e acneica) e looks sem capricho. E, como nas melhores fanfics de banda do tipo "insira seu nome e o do seu membro favorito", é assim que eu ainda gosto de me imaginar capaz de ser apaixonante pro cara dos meus sonhos: com o cabelo num nó frouxo e moletom extra largo.

Sonho de menina feia: ser vista como realmente é (e ser amada assim!)

O que eu mais gosto sobre a progressão da Jukyung é que, após várias situações de quase ser descoberta, ela não se permite reviver inteiramente o trauma do bullying quando esse é trazido de volta à cena e seu rosto sem maquiagem é finalmente exposto, numa tentativa de humilhação pública. Em vez disso, ela curte a fossa, mas rapidamente se lembra como é bom não se importar. Porque, afinal de contas, a beleza verdadeira ela sempre teve (e eu não estou falando do fato de que a personagem é interpretada pela Moon Gayoung). Ela já sabia o que havia conquistado - sua autoestima, um novo gosto por maquiagem, amizades e o coração do cara por quem se apaixonou. Nada mais importa, então, por que ela deveria se importar? Jukyung indo pra escola linda e de cara limpa foi um novo momento de Mia Thermopolis deslumbrando os colegas de classe, pra mim. Só que trangressor. É fazer todo mundo suspirar por todos os motivos errados. É de lavar a alma da menina que, como Jukyung, já teve sua aparência reconhecida negativamente e agora se sente devidamente vingada ao ter a mesma aparência sendo validada como algo incrível. Ser não convencionalmente bonita, segurar o look com espinhas à mostra e beijar o crush da escola inteira sem usar BB Cream, é um baita ato de rebeldia. Jukyung reconquistou a capacidade de não se importar com o que vão pensar e essa, pra mim, é a verdadeira beleza da série.


Gif utilizado com o único propósito de gritar: HAN SEOJUUUUN!! (também sou feia e estou solteira, me liga)

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