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Save Me: a caixa de Pandora dos tabus


Goohaejwoe (salve-me).

Passeando pelo catálogo da Netflix eu me deparei com o pôster desse drama que trazia o belíssimo DoHwan, motivo suficiente para me fazer assistir, mas também estampava a Seo Yeji e o Taecyeon: eu tinha de dar play, certo? Ao ler a sinopse e saber que a trama apresenta um culto religioso numa cidade pequena, mas que tem classificação como mistério e suspense, eu me convenci: claro que eu tinha de assistir. E confesso que até o episódio 6 é difícil de maratonar. A história é apresentada de uma forma crua, real, que dói. Mas a partir do 7º episódio é difícil não maratonar e, infelizmente, talvez seja porque a gente se acostuma com os eventos repletos de tensão, de agonia. Por falar nisso, eu vivi uma escalada de sentimentos enquanto assistia: tristeza, repulsa, pavor, medo, indignação e raiva. E penso que este texto vai seguir a linha do 'muito sentimento, pouca coerência' porque tudo o que eu quis fazer, ao terminar de assistir a Save Me, foi gritar: de alívio; de mais raiva.


"Falso e verdadeiro não são assim tão diferentes" e o drama trabalha com diversos ângulos que demonstram que tudo é uma questão de perspectiva: de escolher o que ver e no que acreditar. Tratando de assuntos como corrupção, gentrificação, violência física e psicológica, assédio, bullying, capacitismo, estupro, assassinato e suicídio, a produção parece ter carregado consigo a caixa de Pandora dos tabus e decidido abri-la a fim de trabalhar, de forma responsável, mas também bastante crua, durante 16 episódios.


TRISTEZA

Save Me é uma história sobre perdas. A família da protagonista só acumulou derrotas e sofrimento desde que chegou à cidade de Muji, nos arredores de Seoul. "Por que está sendo tão legal? Não tenho nada para retribuir," o patriarca da família recém-chegada, após tomar um novo golpe e perder, literalmente, até o que não tinha, questiona aos desconhecidos amigáveis demais. Sendo o retrato da vulnerabilidade que faz ceder a qualquer tipo de apoio ou companhia, a família da Sangmi foi apresentada ao líder do culto de Guseonwon, o Pai Espiritual, que os chamou de "presentes inestimáveis que o Todo Poderoso enviou," dando início às espirais de zelo demais, cuidado demais, atenção demais.

Era tudo visto por uma lupa cada vez maior que dava liberdades cada vez menores, que suprimia sorrisos, vontades, essências, e me fez ficar pensando por muito tempo numa fala simples que dizia: "eu não prestei atenção o suficiente". O que temos negligenciado? Ao que não temos dado atenção? O que temos deixado passar pelas entrelinhas da vida? Isso me faz pensar no pedido silencioso de socorro que a Sangmi fez ao desconhecido grupo de amigos que era respeitado na escola por causa do Sang-Hwan, filho do governador, uma vez que o irmão gêmeo dela estava sofrendo bullying. E fez pensar no Dong-Chul, melhor amigo do Sang-Hwan, dizendo que olhar para o amigo é muito difícil porque, assim, ele precisava encarar tudo o que não pôde viver, tudo o que lhe fora tirado à força apenas porque ele decidiu se importar; porque ele não tinha ninguém para cuidar dele caso tudo desse errado: desigualdade dói.


REPULSA

Todas as cenas do Sangjin sofrendo capacitismo e, consequentemente, bullying e violência física e psicológica me fizeram tremer. É um assunto sensível pra mim e eu não imaginei que fosse ficar tão mal com tudo o que via porque o drama retrata muito bem os níveis de agressão e as consequências dela. Era difícil encarar a tela e mais difícil ainda saber o que fazer depois de refletir sobre tudo o que eu tinha acabado de ver. O estágio dois foi desbloqueado e minha tristeza deu as mãos à repulsa; a violência imposta culminou no suicídio de um jovem de 17 anos que não mais aguentava a dor de existir naquele lugar, naquele ambiente, ocasionando um efeito dominó em Mujin.

"Sangmi ficou assim porque suas orações não foram suficientes", este era o discurso dos líderes do culto que passaram por cima do luto e usaram a dor da perda para culpar e responsabilizar uma família já fragilizada demais. Quanto mais o fanatismo religioso ia sendo apresentado, mas me dava nojo porque a sensação que ficava é de que eu conhecia aquelas pessoas. Trabalhar o assunto religião, sem cair nos estereótipos, nas caricaturas, nos discursos preconceituosos, é algo bem difícil, mas o drama fez isso de forma bem assertiva: lá estava o fanatismo religioso, movido não apenas pelas motivações financeiras ou de controle social, mas também pela crença em e de que um homem, a cada dia, se aproximava mais de ser deus, ao aproveitar-se das fragilidades daqueles vulneráveis de quem a vida já tirou bastante.


PAVOR

Vivenciando o culto de perto, nós íamos desvendando quem eram os apóstolos, os servos do todo poderoso que buscava por Noés 2.0 e que deixou o Pai Espiritual na terra para ser o seu representante legal com direito a papel passado e firma reconhecida em cartório. O jeito como o pai da Sangmi, agora apóstolo em ascensão, passou a olhar para ela, do alto da sua petulância, justificando todos os seus atos em nome da fé, como se a filha fosse sem valor por não adentrar no culto cego igual a ele ou vivesse atormentada pelo mal porque se recusava a ceder aos ideais religiosos baseados numa fé cega que apenas responde a "sim, senhor"; era apavorante.

As cadeias de pavor se seguiram com todos os plots de violência explícita contra vulneráveis: mães solo, idosos, enfermos, pessoas com deficiência, crianças, marginalizados, pessoas em situação de rua, famílias pobres. "Esconda-se bem", e as palavras do apóstolo Jo ainda me devastam ao fechar os olhos e imaginar um trilho de trem ou aquele assovio nojento.


MEDO

Guseonwon é uma comunidade sustentável onde todos trabalham em prol da comunidade. Oram, comem e cuidam de doentes e "almas perdidas" com devoção. Saem para evangelizar, têm o apoio das autoridades, olhem que anjos, só podiam ser cidadãos do céu mesmo... E em nome de orações silenciosas, eles silenciavam os adeptos do culto, eles extirpavam qualquer forma de liberdade, de expressão. O estado catatônico de alguns internos era de chocar! A fachada de um ambiente de paz deu lugar à manipulação e, não fosse tudo tão similar à realidade, talvez eu não sentisse tanto medo.

Eu sentia medo quando louvores que cresci cantando na igreja eram cantados na trama. Eu sentia medo quando o Pai Espiritual começava a pregar e a distorcer o que na Bíblia há. E aplaudi o fato de a produção não ter medo de traçar paralelos nas cenas entre o culto cristão e o xamanístico, com todas as paridades nas movimentações, nos sons, nas formas. "Alguém já pediu para salvá-lo?", e todo este novo paralelo entre a salvação eterna e o pedido de socorro, repetido anos depois pela protagonista, evidenciavam o resgate de que ela tanto precisava.


INDIGNAÇÃO

Assistindo a Save Me me peguei pensando sobre o privilégio de poder se indignar apenas quando for conveniente, como o filho do governador. "Sabe o que as pessoas veem quando olham para você? Seu grande pai", e desta forma as desigualdades sociais, entre dois melhores amigos, literalmente um 'colher de ouro' e outro 'colher de barro', foram demonstradas, demarcando linhas que delimitavam muito bem o presente; que desenhariam o futuro.

Certa vez escrevi numa história uma personagem comendo macarrão e chorando sofrida e ele fez IGUAL, essa cena falou comigo duplamente!

Mujin, para além do culto religioso, também cutucou as feridas nos ambientes familiares, com um bando de mimadinhos criminosos sendo protegidos por causa dos sobrenomes, com punições severas demais apenas para aqueles que nunca tiveram como se proteger. Quando adultos não param as espirais de violência, os jovens crescem achando que essa é a resposta certa, reproduzem os comportamentos destrutivos como se fossem regra e tudo o que aconteceu com o Dong-Chul foi doído de ver porque mexeu com tudo aqui dentro: esmagou, constrangeu, me apequenou.


RAIVA

Em diversos momentos do drama eu me vi com raiva. Como aquela seita conseguia influenciar tantas pessoas? Como as pessoas se deixavam manipular e acreditavam em tudo o que era dito sem refletir? Como? E daí minha mente respondeu com duas palavras: BRASIL 2021. Há poder na persuasão e o uso equivocado da fé que leva a esperançar faz morada em corações vulneráveis demais; que já perderam demais. Save Me me fez refletir sobre diversos temas não somente no que versa sobre a religiosidade, mas também na ganância, no desejo pelo poder, na crença absoluta em tudo que um guia diz e no desejo latente de encontrar e seguir um salvador da pátria, na violência diária e desmedida. É um drama que fala sobre gentrificação, controle social, político e policial, sobre os diversos tipos de influência e todos os absurdos que derivam dela. É um drama que me faz pensar, ainda hoje, na cena em que é citada a analogia do peixe agonizando no anzol: uns não pescam para comer, sim pelo prazer de ver a agonia do animal se debatendo até morrer.

Save Me, além de abordar questões profundas e polêmicas, também traz uma ambientação sombria e de cores frias que ajudam a dar o tom do drama. O sofrimento das pessoas contrastado com as canções em ritmo festivo, a escuridão dos ambientes fechados em contraponto à claridade trazida pela natureza, as minúcias que escrevem suspense e tensão e costuram-se ao companheirismo e amizade de quatro amigos que descobrem que a força do perdão reside nos laços eternizados pela amizade.


Com atuações muito boas, um destaque especial para a Seo Yeji que grita com os olhos, esse drama é daqueles que as pessoas precisam assistir (caso consigam, claro). Infelizmente não tem nem uma pontinha de romance e, neste caso, eu fico feliz por isso porque, da forma que acabou, deu a entender que o casal seria diferente daquele que fiz na minha cabeça e eu prefiro ser feliz com meu headcanon. Antes de finalizar, tenho duas considerações importantes: 1) Taecyeon usa umas calças jeans tão apertadas que parece que vão explodir a qualquer momento (não estou reclamando); 2) eu saí completamente vendida pelo Dong-Chul e queria gritar um PROTEJAM O MEU AMADO!! Olhem pra isso, ele é adorável:

Vó, você é a minha pessoa preferida no mundo inteiro.

As pessoas me perguntam como eu consegui suportar esse lugar. A esperança de que eu escapasse um dia... A esperança de que existisse um verdadeiro Deus lá fora... A esperança de que alguém escutaria meu grito de desespero... Essas esperanças me ajudaram a suportar as dificuldades. Eu acredito que existe esperança no mundo.



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