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Move to Heaven e o tempo de florescer

Atualizado: 4 de set. de 2021



"Quando você está feliz sai água dos seus olhos."

Move to Heaven (A Caminho do Céu) é um exercício de empatia, um retrato social, uma rede de simbolismos. A naturalidade com que a morte, personagem principal do drama, é retratada, me fez pensar bastante durante os 10 episódios que traziam os "casos do dia" e me mostravam que, no fim da vida, a gente cabe numa caixa retangular amarela; a gente continua vivo na memória dos que nos amam. A Move to Heaven é uma empresa de limpeza de traumas. E eu acho lindo demais a maneira como a trama honra seus mortos. O respeito ao tirar o boné antes da despedida silenciosa que culmina em um "esta é a sua última mudança," o cuidado para entender que "até um falecido pode falar" pelas lembranças, pelo legado; pela saudade daqueles que ficam e que recebem a caixa amarela com os itens mais pessoais dos que se foram e, por isso, mais preciosos.


A cada capítulo nós conhecemos uma família enquanto uma vida parte e as que ficam lidam com com a perda. Pesado. Bonito. Doído. Um pai que se vai cedo demais e é lembrado pela cadeira vazia junto à mesa de um filho que, agora, come sozinho; que conversa com uma foto numa casa grande demais para as ausências até que a vida lhe apresenta outro alguém, um tio diferente de tudo o que ele tinha no lar, mas que se torna casa; família de sangue e de escolha. O broche escrito "filho amado" na mochila, os diálogos em LIBRAS, as prestações do terno do filho da velhinha abandonada pela família, os presentes não entregues pela professora, o cartaz feito pelas crianças e a certeza de que, quando alguém morre, vários mundos são sepultados naquele mesmo dia, as mãos dadas que culminam numa mão solitária usando duas alianças emparelhadas, o jardim secreto e a beleza melancólica do entendimento pessoal sobre saber a hora exata de partir...


"Se você se lembrar dele, ele nunca vai embora."

Eu vivi aqueles lutos com as personagens porque eu senti a história falar comigo, falar sobre pessoas que conheço. Eu pensei em minha tia usando a blusa do filho morto até o cheiro dele sumir, em Dona Juju abandonada pela família até durante o sepultamento, na mãe biológica da minha amiga se recusando a conhecê-la e todo o processo de luto em sepultar duplamente alguém que ela nunca conheceu, na reação do meu avô ao saber do falecimento do pai, o homem que o expulsou de casa aos 13 anos de idade. Eu me emocionei na amizade intergeracional entre a menininha do prédio e o segurança idoso, nos paralelos entre passado e presente e nas referências cruzadas que se desenrolavam em plots, até então, distantes; amei ver minha colega de profissão sendo representada de uma forma crível e as relações familiares para além do sangue.


"Eu não posso ouvir se eu não estiver disposto a ouvir", e os paralelos costurados me mostraram os silêncios que gritam mais que qualquer voz enquanto os itens duplos eram filmados na casa do Geu-ru, evidenciando a rotina dele e do pai, agora interrompida pelo tempo. "O papai está sempre ao lado do Geu-Ru [...] você guardou todas as lembranças nos seus olhos," porque, entre as vivências humanas, a experiência comum a todos é a perspectiva da morte, os estágios do luto, a certeza da saudade; o legado que impacta a vida dos que ficam. E por falar em vida, a mudança perceptível do Sang-Gu, num quebrar e remontar emocionalmente a trajetória da personagem de forma que evidencie as famílias que nascem pelas circunstâncias, mas que carregam um histórico de afeto adormecido pela dureza dos dias, pelos teatros mentais que, diariamente, fazemos ao interpretar do nosso jeito aquilo que o outro nem diz porque é mais fácil conviver com a lembrança do que enfrentar o medo de não apenas se decepcionar com o outro, mas decepcionar o outro... e eu nunca mais conseguirei ver um Nike do mesmo jeito!


"Tive esperança desde a primeira vez que te conheci."


Move to Heaven é sobre família, amor e luto. Nessa ordem e fora de ordem, porque a ordem principal é se permitir sentir. Sentir as delícias e as dores de viver, sentir a grandiosidade e os egoísmos no próprio sentir, sentir os processos e os vazios que a falta faz. O ponto final, no último episódio, é acrescido por uma vírgula, como só a vida da gente pode fazer, porque a voz que se perde nas palavras que não chegam dá lugar a novos sons porque "enquanto você lembrar nunca vai desaparecer." E eu senti, durante os 10 episódios, a felicidade escorrendo em meu rosto, a tristeza repousando em meu lábios. E estar disposta a sentir foi essencial para ouvir aquilo que as personagens não diziam, mas sentiam porque viviam. Acho que sentir é estar viva.


Como Jung disse, “qualquer árvore que queira tocar os céus, precisa ter raízes tão profundas ao ponto de tocar os infernos”. Move to Heaven é uma árvore de raízes longas que vão fundo, profundo, mas que sobe alto, tão alto porque cresce; floresce.

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