• neereis

Laudo Médico: REPLYER

Atualizado: 5 de nov. de 2021


"O tempo vai passar. Tudo passa. Tudo envelhece. Talvez por isso a juventude seja linda. Ela brilha por um instante, mas você nunca pode voltar."

*esta postagem contém SPOILERS*


Eu comecei a ver Reply 1988 porque estava com saudades da bela face de Park BoGum, mas não imaginava que a história fosse me envolver de tal forma, não previa sentir tanto tudo o que estou sentindo depois de terminar. E esse texto, que eu queria que fosse uma análise, uma resenha ou uma recomendação, porque o drama merece, não é nada disso. É impossível que seja. Porque eu me tornei o que a Débora chama de "muitos sentimentos e pouca coerência." Eu só sei sentir. E tenho sentido demais: falta, saudade. Mas principalmente um sentimento que ainda não soube batizar porque, apesar de ser um velho conhecido, eu creio que ele é aquele tipo de gente com quem a gente se sente à vontade demais e, apenas quando sai de sua presença, é que se lembra de que esqueceu de perguntar o nome.


88 foi o ano em que nasci. A Rua Ssangmun 10-2 me acolheu. Porque eu já morei naquela rua. Eu já fui a única menina no quarteto que virou quinteto e fazia tudo junto. Eu já fiz parte de um grupinho em que um deles era engraçado e amava dançar e outro era caladão e virou piloto de avião enquanto eu andava com meu chanel e franjinha e me sentava nos degraus de uma escada de cimento igual demais à da ficção ou ia para o quarto de um deles para jogar super nitendo ou nos reuníamos para assistir a Power Rangers e ouvir Mamonas Assassinas. Ssangmun deixou em mim marcas que costuraram a saudade com as memórias: do que vivi, do que assisti. Ssangmun mostrou para mim que certezas imensas cabem em microinstantes; vivem em detalhes que só podem ser vistos com o coração.



Quando o Sung-Kyun ouviu a voz da mãe, eternizada numa fita k7, eu chorei. Quando o Taek consolou o Dong-Il e contou que sentia falta da mãe o tempo inteiro, eu chorei novamente. Chorei porque imaginei como deve ser doído não ter a oportunidade de ver nossas mães em todas as suas versões. A minha mãe já passou por fases que nunca pude ver, mas com sorte eu poderei presenciar as demais. Como a Dona Onça entrando na menopausa, a Sun-Young casando-se novamente, a Il-Hwa tendo o prazer de viver, enfim, sem fazer malabarismos para que haja contas pagas e comida na mesa. Por falar nelas, é impossível não perceber a máxima de que mãe é tudo igual e como a pobreza é universal: seja na Coréia do Sul, seja no Brasil, a gente entende porque reconhece. A união, também, é familiar. E não falo das cinco famílias da porta para dentro, eu tenho de vontade de chorar (sim, de novo!) emocionada por causa da grande família formada da porta para fora, no convívio diário do comer junto e do partilhar o pouco e o muito que se tem. E, por falar em muito, havia muito afeto. "Hoje em dia sabem lidar com equação de 2º grau, não com a vida," e o Dong-Ryong não poderia estar mais certo! E eu não poderia o amar mais, inclusive eu passei o tempo inteiro querendo casá-lo com a Ji-Won, de Hello, my Twenties!, mas este é assunto para outro dia.


Reply me fez pensar nos atos de cuidado que gritam aquilo que a gente não sabe dizer, não consegue falar. O Dong-Il dando para a Bo-Ra uma sacola cheia de remédios foi a forma de garantir que ela estivesse bem mesmo longe das vistas dele, ele calçar os sapatos um número maior ou vestir a camisa um número menor para trabalhar, porque eram presentes dela, comprados com o dinheiro dela, diz tanto! E as cartas que eles trocaram no dia do casamento dela me faz chorar tanto quanto ela ao fazer a reverência ante o pai durante a cerimônia. Aliás, a linguagem de amor deste homem me faz lembrar do meu tio Luiz que também comprava algo, por vezes inútil ou idiota, sempre que ia do trabalho para casa porque era sinal de que ele pensava na família: a que o esperava em casa e aquela que vivia nos lares daqueles que os vendiam enciclopédias, guia para fazer bebê dormir ou removedor de tinta que não remove tinta. E daí minha mente corta para ele dizendo à segunda filha que o sonho dele é não ver os filhos sofrerem. E ela rebate "esse é o seu sonho pra mim, qual o seu sonho para você?". E ele cala. Acaso a gente vive pelos outros quando gera alguém? Nós conhecemos uma das muitas versões deste homem; e eu entendo como cada casal ali foi formado porque o drama, além de apresentar pais, mães e filhos, apresenta pessoas. Completas. Complexas.


Eu vi uma menina que se achava patética por não ter sonhos, que se achava menor que todos por não saber o que fazer depois de concluir o ensino médio, não perder o brilho no olho ao entender que a gente não tem de saber tudo o tempo todo. Eu vi dois jovens colocando a família à frente seja para abdicar do sonho de formatura, por causa da falta de dinheiro, seja para decidir a profissão futura porque queria honrar a mãe. Eu vi alguém descobrir sua vocação desde a infância e vi outrém que era a versão jovem de um pai severo que passou tempo demais para aceitar se enxergar no próprio filho e, assim, permitir que ele fosse feliz sendo quem era. Eu vi dois irmãos fazendo pedidos à estrela cadente enquanto o caçula guardava o desejo de ser tudo aquilo que o irmão não conseguia para que o hyung se realizasse por meio dele. E eu vi, com olhos marejados, eles realizarem seus sonhos, eles crescerem e permanecerem os mesmos daquela foto eternizada no quarto do Taek; os mesmo que sabiam o que fazer quando sozinhos, mas que preferiam viver juntos — en las buenas y en las malas.


Eu chorei até meus olhos incharem quando o Jung-Hwan, enfim, se declarou, mas percebeu que era tarde demais porque destino e sorte são resultados das inúmeras pequenas escolhas que fazemos; que ele deixou de fazer. E meu cérebro repetia a cena do guarda-chuva, dele esperando na janela até que ela voltasse para casa, da camisa rosa pendurada na parede, da foto na carteira, do ônibus, da espera fingida enquanto amarrava e desamarrava o cadarço apenas para irem à escola ao mesmo tempo; dos sorrisinhos bobos que ele abria sempre que ela estava sendo... ela. E me dói perceber que ele semeou um jardim imenso dentro dele, mas se esqueceu de abrir a porta e convidar a Deok-Sun para entrar. E como se tudo já não estivesse confuso demais dentro de mim, eu sorri até meu rosto doer quando o Taek a beijou no meio da noite, em todos os abraços sonolentos que ele dava nela no meio da rua, nas cenas dela ensinando ele a xingar, nele a presenteando com a taça da vitória, parando de tomar sonífero, e principlamente durante as duas viagens para a China. Sorri porque foi lindo ver o amor dos dois se solidificar, porque foi natural, porque foi real.

E eu acho que é isso que eu mais amo em Reply. Eu vi a vida passar no virar de folhas do calendário e percebi que muito do que a gente cala pesa três linhas adiante; mas a gente sobrevive. E não houve rancor. Porque sempre existiu amizade. Eu vi aquele dos atos de serviço fazer para a mãe o melhor presente possível porque os olhos que muito falam, muito captam. E ali, com todo mundo reunido, celebrando com a Mi-Ran ou chorando com a leitura da placa de aposentadoria do Dong-Il, eu percebi que família é um estado de espírito, uma ação. Ssangmun me presenteou com um grande e belo buquê e, apesar de ter chegado ao fim, as flores não morreram, eternizaram-se. "Achei que tudo acabasse quando as pétalas caíssem, esqueci que nasce um novo broto." E o broto sou eu e meus sentimentos por ter visto uma das melhores coisas que poderia ver este ano!


A trilha é incrível, os episódios são imensos, todos os personagens, sem exceção, são protagonistas (e apaixonantes!), há passagem de tempo e uma falha que me deixou triste (a gente é apresentado à Deok-Sun e seu marido do futuro e vai tentando descobrir com quem ela se casou) porque eu sinto como se decidiram mudar o marido na reta final do drama, mas nada disso me faz amar menos ou não considerar o drama como incrível! Outro ponto importante é que também não há vilões. Há pessoas vivendo, errando, acertando; sendo. Juntos. Numa trajetória narrada com maestria. Penso que cada episódio é como viver a vida, um dia de cada vez, encarando as possibilidades e a simplicidade com medos, mas também com graça e sensibilidade. Reply 1988 trabalha memórias e nostalgia com precisão e as transmite com delicadeza e verdade. Como disse a Lay sobre mim, "laudo médico: replyer".

"Naquele cenário, onde não poderemos mais nos reunir daquele jeito... me arrependo de não poder dar meu último adeus. Para as coisas que já se foram... para um tempo que já passou, eu quero dar um adeus tardio. Adeus, minha juventude! Adeus, Ssangmundong. Um tempo tão acolhedor e puro, que foi doloroso. Você consegue me ouvir? Se consegue, responda. Meu 1988, os dias da minha juventude."

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