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Blind: você realmente não nos vê?

Atualizado: 7 de nov. de 2022

Blind me pegou desprevenida. Porque eu não estava preparada para conhecer um grupo de meninos sendo abusados físico, psicológico e sexualmente. Eu não estava pronta para presenciar a imoralidade do poder público que, durante anos, perpetuou ciclos de violência contra aqueles que, para as vistas da sociedade, prometeu proteger. Eu não estava preparada para ver o encarceramento não apenas de corpos, mas de sonhos e planos; de futuros. Crianças sem identidade, chamadas por números, para que se esquecessem diariamente de suas origens, de sua humanidade. Crianças que morriam um pouquinho todos os dias, que brigavam para sobreviver, para se proteger; fazendo do sofrimento diário o denominador comum para serem família umas para as outras. Crianças a quem foi negado o direito de ser... criança.


Em 16 episódios, esse maravilhoso thriller conta uma história sombria sobre os sobreviventes sem nome que, 20 anos depois, trilham um caminho de vingança contra aqueles que foram responsáveis por todo abuso e brutalidade que eles sofreram na infância e pré-adolescência. Agora, os papéis se invertem: os algozes do passado são as vítimas do presente. Ao menos tecnicamente. Porque o drama trabalha de forma magistral as questões humanas. E, a partir daqui, é um texto com spoilers porque tudo o que eu precisava, hoje, era colocar para fora todos os sentimentos sobre este drama.

"Quando você disse que queria ser policial, uma parte de mim ficou surpresa enquanto a outra ficou aliviada."


Os adultos que administravam e/ou conheciam o que se passava no Welfare Hope, centro assistencial para meninos órfãos ou abandonados, 20 anos depois do fechamento do Centro, seguiram suas vidas e mantiveram suas carreiras (alguns ascenderam a cargos ainda maiores); viviam como se todos os absurdos do passado tivessem, realmente, ficado no passado: naquele estilo "pimenta no cu dos outros é refresco". Porque o passado, como lindamente foi demonstrado numa das cenas finais do drama, caminhou de mãos dadas com todos os sobreviventes do Hope, agora também adultos que, à maneira deles, buscavam levar uma vida "normal" apesar de.


A forma assustadoramente bela em que Blind traça seus paralelos me deixou extremamente feliz (e mexida!). Tudo começa em um julgamento, por júri, sobre o assassinato de uma jovem no dia de seu aniversário de 20 anos. A partir dali, mais e mais assassinatos acontecem e a trama brinca, o tempo todo, sobre quem é o verdadeiro culpado. Achei Agatha Christie demais da parte deles e por isso acho que amei mais ainda! Ao acompanhar o desenrolar dos crimes e das investigações (mais de uma, pode apostar!) a costura ganha nós sólidos porque vítimas, suspeitos, policiais, juízes e agente públicos se mostram entrelaçados tanto quanto as memórias nebulosas do protagonista que, na maior parte do drama, não sabe quem é de verdade.

Ok Taecyeon, Ha Seokjin, Jung Eunji, Park Jibin e grande elenco estão INCRÍVEIS!


Blind nos mostra que nada, realmente, fica escondido. Melhor, que não adianta fecharmos os olhos para o que pensamos "não mais ser", porque ainda é. E lida com essas questões de uma forma tão magnífica que tudo o que posso fazer é dizer: UAU. A força tarefa compacta é essencial para que o telespectador não se perca, já que o número de vítimas é grande e, a meu ver, isso só faz a trama crescer. Quero aproveitar e deixar o meu carinho para o roteirista porque me deu um drama com policiais sem que houvesse uma série de abusos dos superiores com os mais jovens por puro prazer pessoal. E já que estou fazendo comentários aleatórios, preciso dizer que podia, sim, ter um romancezinho entre o Sunjoon e a Eunki porque não é possível que apenas eu tenha visto as faíscas sempre que eles se ajudavam ou um salvava a vida do outro. Provas? Temos:

Eles não olham assim pra todo mundo!

A sequência final do drama me deixou encarando a tela em meio às lágrimas por alguns longos minutos. Um sentimento igual ao que fiquei ao finalizar The King of Pigs (assistam!!) e eu tenho certeza de que a temática "violência infantil" seja algo que doa em mim em lugares que nem saiba explicar. Toda a cena do Sunghoon caminhando no corredor da prisão mesclada com a imagem dele 20 anos atrás, caminhando pelo corredor do Hope; finalmente deixando o seu passado traumático para trás, me deixou em pedaços. E preciso dizer que os crimes dele e do Yoonjae não são justificáveis, claro, mas eu não os vejo como vilões. Eles são, se é que posso resumir assim, produtos da omissão e da negligência de adultos que, olhem só, deveriam zelar pela integridade e proteção deles. E é tão triste pensar que a mão que deveria salvar é a mesma que mata.


Ainda sobre a sequência final (vai morar na minha mente por um tempão, eu sei disso), quando o Sungjoon vai ao Centro Infantil onde a Eunki trabalha como assistente social, e vê as crianças jogando futebol em meio a toda a estrutura que aquele Centro oferece, foi impossível não pensar naquilo que as crianças de 20 anos atrás não tiveram. "E se eles tivessem um adulto como a Eunki? E se lá existissem adultos que não fechassem os olhos para a verdade? Eles teriam vivido diferente?", ele se pergunta enquanto as cenas são mescladas novamente e os rostinhos que apenas vimos sofrendo, agora sorriem durante uma partida de futebol.

EU ESTOU FALANDO DE DOR, MINHA GENTE!

Como assistente social, foi muito bom ver o trabalho de uma colega de profissão ser representado de uma forma tão legal (vou desconsiderar a idealização aqui porque ficção e apegos, por favor, faça o mesmo); foi incrível ver um drama tão bom tratar de um assunto tão sério de uma maneira tão responsável, ainda mais numa sociedade tão conservadora quanto a coreana. Meu desejo era de que esse drama entrasse no catálogo da Netflix porque queria que muitos brasileiros assistissem, já que nossos índices de tráfico/abuso de pessoas são maiores que a média mundial, infelizmente. E aqui falo de exploração sexual infantil, adoção ilegal e trabalho em condições análogas à escravidão: tudo o que o drama abordou de forma explícita. De mãos dadas com a realidade, onde agentes públicos, judiciais e de segurança, por exemplo, estão diretamente envolvidos com os crimes contra menores, o drama nos convida para o diálogo. E nos faz pensar. Não apenas sobre o que conseguimos ver, mas principalmente naquilo que está por dentro: o desespero, o desamparo, a agonia, os traumas de quem sobreviveu. De quem conseguiu seguir apesar de.


Blind é um drama imenso, intenso, imersivo. A trilha do episódio final (que ainda não achei) é belíssima e eu quero encerrar o texto com um trecho dela que resume muito bem a trama e as sensações que ela traz:

Vai ser solitário, apenas feche os olhos por um tempo. Vai ser um longo sonho, apenas feche os olhos por um tempo.

 

Assistam a Blind! E para não dizer que tudo é dor e porrada, trago aqui duas cenas muito engraçadas e que foram um respiro gostoso em meio à história densa e difícil de digerir.

"Como é que ele não tem um único defeito?", perguntou o irmão caçula, antes de fazer o maior ato de rebeldia dentro da geladeira do Sr. Perfeitinho.


A GARGALHADA QUE EU DEI NESSA CENA!!! A cara do Taecyeon é impagável!!

2 Comments


Guest
Nov 07, 2022

Gostei muito de sua resenha, e The King of Pigs foi excelente também

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neereis
neereis
Nov 09, 2022
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Muito obrigada! The King of Pigs é um dramão mesmo!!!

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